Intervenção na AM
Paredes
Auditório A Lord –
Lordelo
Relembrar o dia 25 de
abril de 1974 é justo e necessário. Relembrar esse dia 25 de abril de 1974,
esse dia límpido, singular e irrepetível, é tarefa de todos os democratas e
progressistas. Mas ao lembrar Abril, hoje e tal como em anos anteriores em comemorações
oficiais em Paredes, devemos refletir sobre o seu significado.
De Abril já muito se
disse, importa só e apenas que Abril se cumprisse. Mas…
Em 1974 começamos uma
época rica em conteúdos, prenhe de acontecimentos decisivos. Tudo o que hoje
temos de mais positivo na nossa vida colectiva surge ou se regenera em abril de
1974.
As gerações mais
novas, menos alertadas para as circunstâncias da História, não serão muito sensíveis
a ganhos, conquistas, desenvolvimentos de então. Naturalmente assim é, porque não
as viveram, como foi felizmente o meu caso, cedo protagonista entusiasta desses
dias aos 18 anos de idade.
Mas a Liberdade, a
Democracia, a liberdade de expressão e de associação, os direitos políticos e laborais,
o direito às férias, o salario mínimo, o direito á saúde, educação e segurança
social, a emancipação das classes média e inferior da sociedade, a construção
do Estado Democrático, têm a sua origem nesse período, base e estrutura do sistema
político constitucional.
De um pais com passado
colonial, passamos a um pais respeitado e aberto ao mundo, com uma referência
identitária de promotor de Paz.
Tempo de
contradições, de conflitos, quiçá de angústias, mas tempo de construção
acelerada do futuro. Onde o som das gargantas nas ruas e os cravos vermelhos
nas mãos abriram alamedas de expetativas luminosas.
Mas como Revolução
Libertadora, Abril não se cumpriu na totalidade, antes pelo contrário, em muito
regrediu e se desvirtuou. O socialismo amplamente apregoado foi metido em
gaveta ou sótão poeirento e foi substituído por um liberalismo de vários
matizes, sem princípios ou valores, onde cedo grassou práticas de corrupção,
obscurantismo e desigualdade. E onde parcelas importantes da nossa economia e sector
financeiro foram desviados para mãos do estrangeiro.
O Estado foi
aprisionado por sucessivos governos (com poucas intermitências…) por lógicas
privadas e interesses obscuros, como as privatizações, ou as concessões de
serviços públicos. O enriquecimento ilícito, a evasão fiscal, a fuga de
capitais para o exterior, são consequências dessa promiscuidade
público-privado, dessa porta giratória entre governos e conselhos de
administração das grandes empresas nacionais e estrangeiras.
Com a integração
europeia, acentuaram-se mecanismos externos de dependência, com a utilização de
fundos ditos estruturais para obras de utilidade muito duvidosa ou conjuntural,
sem real beneficio para o PIB. A economia estagnou.
O país está mais
dependente, perdida a soberania alimentar, a soberania energética e sendo
atualmente emissor de mão-de-obra e recursos humanos, muita da qual altamente qualificada,
para os países mais ricos.
O país vive numa
subalternidade, subjugado pelos ditames do sistema politico dominante mundial.
Devido ao tempo disponível,
assinalaria por fim e telegraficamente três sectores julgados essenciais no
tempo presente e a carecer atenção prioritária:
- a Saúde e os seus
profissionais, indispensáveis ao bem estar e à vida das populações; o SNS como
conquista democrática de Abril, suas virtualidades, suas potencialidades, sua importância.
A valorização de recursos humanos, de meios técnicos, a dignificação de
carreiras
- a Educação, os seus
profissionais, professores e outros agentes educativos. A Escola Pública como base
de toda a formação integral do individuo e da cidadania. O reforço da motivação
dos profissionais e a centralidade da Escola na formação de mentalidades, na
defesa da solidariedade e não do individualismo e da competitividade, e no
combate à desigualdade social. O sucesso educativo individual e a inclusão,
como grandes objetivos.
. e por fim o Poder
Local, os autarcas como representação efectiva do interesses das populações e fator
de crescimento e desenvolvimento das comunidades. Um apelo à qualificação e à
criatividade. E aqui permito-me referir a desilusão profunda com o não
cumprimento da promessa da revogação da anexação de freguesias efectuada contra
a vontade das populações.
De Abril já muito se
disse, importa só e apenas que Abril se cumprisse.
Assim termino.
Cristiano Ribeiro –
CDU Paredes
25abril2021