UM DISCURSO DE MIGUEL TORGA QUE NÃO CHEGOU A SER PROFERIDO POR A REUNIÃO POLÍTICA A QUE SE DESTINAVA TER SIDO PROÍBIDA (em 1951)
Como escritor que saiu do povo e lhe ficou fiel, doem-me duplamente os crimes que o fascismo cometeu na nossa terra. E acuso. Acuso uma ambição de poder como ainda não tivemos igual, uma obstinação que se não rende a nenhum clamor, um orgulho solitário que despreza os concidadãos, uma crueldade fria que mata a alma coletiva a frio. Quando todos devíamos estar aqui num fraternal convívio à procura de soluções para os nossos problemas ou a festejar a solução deles, consentem-nos por especial favor e a título precário que gritemos, vigiados, por justiça e liberdade. Tratados como filhos relapsos desta terra que nos viu nascer, e que amamos do fundo do coração, acusam-nos de a querer perder e destruir.
Mas o tempo dirá, quando a História nos julgar a todos, se os seus verdadeiros servidores foram eles, roubando, devorando, esbanjando, falsificando eleições, criando clientelas, encobrindo ignomínias, fomentando ódios, cavando abismos entre irmãos e perseguindo o espírito de todas as maneiras, ou nós, querendo alicerçar a ordem na justiça e na verdade, e desejando o espírito livre ao livre serviço da Nação.
(Excerto de um Texto (Palestra) de Miguel Torga, para ser lido numa reunião política que foi proibida, em 1951, in Miguel Torga, Ensaios e Discursos, Publicações D. Quixote, 2001, pág. 250)
Sem comentários:
Enviar um comentário