O título bombástico (“Professores chumbados”) diz tudo. A publicação no JN não admira, afinal o seu autor é Subdirector do Jornal. Mas confesso que me impressionou a sua radicalidade.
Conheci o seu autor em tempos juvenis. Era então Jorge Fiel um fogoso militante da LCI, uma organização trotskista onde predominava Louçã. Recordo-o em imagens na vizinhança do Liceu Alexandre Herculano ou na Praça Parada Leitão, frente ao Café Piolho, junto da Reitoria, cabelo comprido, ar de romântico sonhador, embebido de paixão revolucionária. O jornalista em que se tornou pareceu-me ser menos impressivo, um misto de liberal anárquico, rumando ao serviço da corrente maioritária, bajulador de poderes fácticos. Fez carreira, chegou á direcção de publicação do empresário Joaquim Oliveira.
No artigo citado, Fiel fala de pesadelos de ex-universitários. Mas acima de tudo fala de uma obsessão: os professores e as suas reivindicações, a “Função Pública”, a FENPROF, Mário Nogueira, a CGTP. A lista parece longa, mas tudo se resume a um pouco discreto acerto de contas de Fiel com o seu passado. Fiel é coerente na radicalidade, só lhe inverteu o sentido.
Diz o autor que Mário Nogueira e a FENPROF “estão a aproveitar-se do facto da época de exames ser de nervosismo e ansiedade”, “tornando “reféns” ou “escudos” os 275.000 alunos do secundário. Realce-se a “discursata” pidesca que sublinha sempre um rosto como o “culpado” e quando não é só um rosto é uma organização a “abater”, seja ela a FENPROF seja uma CGTP a “manter o seu Alentejo profissional que é a Função Pública”, aqui claramente o tom provocatório.
Mas ao actual Fiel não se pede que simpatize com as reivindicações dos professores, nem se interrogue com as dinâmicas generalizadas de protesto de uma classe e da pluralidade dos seus representantes. Só não se admite que não as conheça ou reconheça, como o direito ao emprego em primeiro lugar e a condições de trabalho profissional. Nos gabinetes do JN talvez se pense que a Administração Pública é lugar de “conforto” e de “emprego assegurado”, a que se deve estender politicas de desemprego fácil, desmotivação profissional, instabilidade e redução de direitos.
Por fim, perdoem-me, a ignorância científica e a jactância são fatais. Diz o ex-trotskista, convertido em cristão-novo das políticas de Gaspar, que a greve é um medicamento (outrora diria que era uma arma). É uma comparação serôdia. O exemplo do “hipotensor” (a greve) letal para doentes de tensões baixas (os estudantes) é ridículo. Não há “hipotensores”, há anti-hipertensores, que na sua grande maioria não têm efeito em situação de normalidade ou baixa de tensões. A “greve” de Fiel é um seu pesadelo nocturno. Os “doentes das tensões baixas” são igualmente irreais.
A greve só é eficaz se resultar de um processo de consciencialização da classe nos seus direitos, em objectivos precisos e estratégicos, instrumento a usar contra prepotências, politicas erradas ou injustiças. Mas isso não interessa a Fiel.
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