Um interlocutor
bastante improvável referia-me muito recentemente a “necessidade” de substituir
o Secretário-geral do PCP por alguém “mais novo”. Confesso ter ficado desta vez
ainda mais surpreendido pela referência, tão imprevista em conversa trivial do
dia-a-dia, e tão assertiva, pois surgida como se se tratasse de questão
imperiosa.
Da recente entrevista
de Jerónimo de Sousa à Cristina Ferreira na SIC, muitos dizem ter ficado a (re)conhecer
um ser humano especial e a lhe atribuir um grande valor. Uma instituição, lhe
chamou Cristina Ferreira.
Em Jerónimo, alguns
só lhe descortinam a idade, as rugas, o olhar pesado (ou cansado), a
sinceridade, a coerência, um percurso de vida historicamente datado. E por aqui
ficam. Alguns porém vão mais longe.
E lá descobrem a
coragem específica de ocupar cargo político de tanta responsabilidade, sendo de
origem operária, sem licenciatura ou doutoramento, a excepção em terra de
doutores e especialistas.
E lá conseguem deslumbrar
a capacidade e intuição para o exercício global da política, independentemente
do local em que se exerce (Parlamento, Sindicato, Partido).
E lá vêem a profunda
dinâmica inter-geracional dos dirigentes do Partido.
E lá observam e
concluem que com Jerónimo foi e é possível uma alternativa, uma mudança de
rumo, a negociação, a oposição e o confronto. Mas poucos, muito
poucos, conseguem ver o que seria justo e razoável: uma identificação de 24
horas por dia, uma presença 7 dias por semana, ao serviço de uma causa, uma
disponibilidade física muito exigente. Uma atualidade permanente. E isso
torna-o gigante.
O tempo de vida é
finito, sabemo-lo todos. Não há determinismo histórico que nos conduza
inevitavelmente para o Bem, para a Justiça ou para a Liberdade.
São os homens que
atentas as circunstancias constroem o seu futuro e da sociedade em geral. Cada
um por si mas sobretudo organizados em consciência e força colectivas dá e dará
sempre a sua contribuição. Para o bem e para o mal.
Não busco na imagem
física de Jerónimo a modernidade ou a atratibilidade do projeto ou a sua prova
dos nove. O coletivo é muito mais forte, tal como as ideias. A idade dá-nos
alguma sabedoria mas cria limitações e retira capacidades. Sabemos todos quão
fútil é parecer ser o que não se é.
Em ano de Congresso,
onde para além de outros aspetos certamente se discutirá internamente os rostos
e protagonistas, tenho uma certeza: Jerónimo de Sousa estará presente nessa
discussão, sem interesses pessoais ou de grupo a defender, sem telhados de
vidro ou património de origem desconhecida. Como sempre, exemplar.
E por isso, desde já,
obrigado, Camarada.