um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

domingo, 29 de março de 2020

FLICK FLACK À RETAGUARDA


Francisco Lousã na sua página de Facebook diz:
A debandada dos federalistas
O príncipe dos federalistas, Yannis Varoufakis, apresentou-se às eleições europeias com um movimento, "Primavera Europeia" (que aliás incluía um partido português) e que prometia um programa para uma UE federal e unida.
Varoufakis mudou de opinião agora. Acaba de escrever que a decisão do Reino Unido de sair da UE foi não só necessário como racional

Fiquei estupefacto. Até há pouco tempo Francisco Louçã afirmava-se federalista, de um “novo tipo”, mas federalista. O próprio BE admitia-o, tanto no ideário, como na própria organização inter-partidária europeia com o Partido da Esquerda Europeia. A sua fé federalista na União Europeia não era seguida pelo PCP e pelo PC grego. Temos agora um flick-flack. Não é somente de Varoufakis. Ser federalista hoje não é cartão de visita aconselhável. Mas ser oportunista não é bonito.   
 CR

quarta-feira, 25 de março de 2020

REFLEXÃO

Primeiro a perplexidade, depois o medo, invadiram e cegaram as nossas vidas, tornando-nos frágeis marionetas de um não controlado destino
CR

segunda-feira, 23 de março de 2020

poema

PANDEMIA
Chamem-te o que quiserem, vírus
corona, covid, pandemia: és, apenas,
mais uma face escondida da má morte,
cobarde, sem foice de ceifar-nos que se veja
e a olho nú possamos alvejar.
Não prestas. És o lado mudo,
o invisível advogado de acusação
sem contraditório, o executor,
a fogueira de uma Inquisição que às avessas
nos arde por dentro e é
tão injusta como todas as Inquisições.
Sabes que vais perder a guerra. Mas,
como sempre alegremente fazem
os que tiram prazer dela, causas,
ao enorme batalhão de soldados
que agora todos somos,
as baixas que não merecemos e que apenas
farão perdurar em nós, depois do Dia D,
o sabor amargo de uma vitória dolorosa
iluminada por milhares de velas e de flores
que enfeitarão
a vala comum aonde guardaremos,
numa fortaleza de lágrimas,
o fruto mais fértil da saudade

Nuno Gomes dos Santos

quinta-feira, 12 de março de 2020

POEMA



POEMA  BOFETADA NOJO
Lá na praia de Carcavelos
aconteceu o anormal
houve gente, muita gente
a fazer de animal

Lá na praia de Carcavelos
houve eclipse geral
e perdeu-se o bom senso
lá no meio do areal

Á declaração de pandemia global,
a ignorância
a irresponsabilidade
a palermice
o ridículo
respondeu:
“Todos ao banho, pessoal!”

Lá na praia de Carcavelos
lá na zona de Cascais
há açaimos e coleiras
a colocar nos animais.

CR

sábado, 7 de março de 2020

GENTE GUERREIRA


As primeiras vítimas em Portugal da infecção pelo COVID-19 são, não o esqueçamos, pessoas normais que certamente dispensariam o protagonismo da atual pandemia. Imagino a consciência que possuem da sua precária situação, clinica e social. Imagino o injusto sentimento de culpabilidade que transportam nestes dias. 

Por isso expresso-lhes a minha solidariedade,  atenta às circunstancias. Pessoas bem formadas, pessoas de bem, desejam-lhes uma rápida convalescença clinica e uma talvez mais tardia reabilitação social. São tão necessários, tão imprescindíveis como nós. Neles haverá sempre a fragilidade humana. Mas também haverá a capacidade de superação. Não será o isolamento terapêutico que destruirá o espirito de gente guerreira.

CR

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Fragmento da História


O Jornal de Noticias de 7 de março de 2010 noticiava a visita de João Ferreira, Eurodeputado do PCP ao Concelho de Paredes no dia anterior. Era a época do descontentamento dos utentes de saúde de Lordelo e Rebordosa, de longas filas de madrugada para obter o acesso à consulta no Centro de Saúde. Reuniu-se o eurodeputado comunista com uma Comissão de Utentes que o informou que de um universo de 20.000 utentes, cerca de 6.000 utentes de Rebordosa e Lordelo não tinham Médico de Família. João Ferreira manifestou a sua preocupação com directivas comunitárias então em discussão que apontavam para a liberalização do sector da Saúde e para a privatização dos serviços. A jornada de trabalho terminou de tarde com a visita a cooperativas de distribuição de água em freguesias do Concelho, onde se discutiu a gestão da água como bem público.


CR

domingo, 19 de janeiro de 2020

AS RUGAS DE JERÓNIMO


Um interlocutor bastante improvável referia-me muito recentemente a “necessidade” de substituir o Secretário-geral do PCP por alguém “mais novo”. Confesso ter ficado desta vez ainda mais surpreendido pela referência, tão imprevista em conversa trivial do dia-a-dia, e tão assertiva, pois surgida como se se tratasse de questão imperiosa. 

Da recente entrevista de Jerónimo de Sousa à Cristina Ferreira na SIC, muitos dizem ter ficado a (re)conhecer um ser humano especial e a lhe atribuir um grande valor. Uma instituição, lhe chamou Cristina Ferreira. 

Em Jerónimo, alguns só lhe descortinam a idade, as rugas, o olhar pesado (ou cansado), a sinceridade, a coerência, um percurso de vida historicamente datado. E por aqui ficam. Alguns porém vão mais longe. 

E lá descobrem a coragem específica de ocupar cargo político de tanta responsabilidade, sendo de origem operária, sem licenciatura ou doutoramento, a excepção em terra de doutores e especialistas.

E lá conseguem deslumbrar a capacidade e intuição para o exercício global da política, independentemente do local em que se exerce (Parlamento, Sindicato, Partido).

E lá vêem a profunda dinâmica inter-geracional dos dirigentes do Partido.

E lá observam e concluem que com Jerónimo foi e é possível uma alternativa, uma mudança de rumo, a negociação, a oposição e o confronto. Mas poucos, muito poucos, conseguem ver o que seria justo e razoável: uma identificação de 24 horas por dia, uma presença 7 dias por semana, ao serviço de uma causa, uma disponibilidade física muito exigente. Uma atualidade permanente. E isso torna-o gigante. 

O tempo de vida é finito, sabemo-lo todos. Não há determinismo histórico que nos conduza inevitavelmente para o Bem, para a Justiça ou para a Liberdade. 

São os homens que atentas as circunstancias constroem o seu futuro e da sociedade em geral. Cada um por si mas sobretudo organizados em consciência e força colectivas dá e dará sempre a sua contribuição. Para o bem e para o mal. 

Não busco na imagem física de Jerónimo a modernidade ou a atratibilidade do projeto ou a sua prova dos nove. O coletivo é muito mais forte, tal como as ideias. A idade dá-nos alguma sabedoria mas cria limitações e retira capacidades. Sabemos todos quão fútil é parecer ser o que não se é. 

Em ano de Congresso, onde para além de outros aspetos certamente se discutirá internamente os rostos e protagonistas, tenho uma certeza: Jerónimo de Sousa estará presente nessa discussão, sem interesses pessoais ou de grupo a defender, sem telhados de vidro ou património de origem desconhecida. Como sempre, exemplar. 

E por isso, desde já, obrigado, Camarada.