Exmo. Sr. Presidente
da Câmara Municipal, Dr. Celso Ferreira
Exma. Sra. Dra.
Hermínia Moreira, vereadora do Pelouro da Cultura
Estimados convidados
e membros das instituições aqui presentes
Minhas senhoras e
meus senhores
O tema musical que
acabámos de ver e ouvir interpretar neste vídeo é o toque do silêncio. Este
toque marca o último momento da jornada de qualquer militar. Ele assinala o
tempo do regresso ao quartel, do recolhimento, do descanso, da paz. E diz a
tradição ou a lenda, que a origem do tema remonta a 1862, no cenário da guerra civil
americana.
Em breves palavras,
conta-se que, durante a noite, um capitão ouvira gemidos de um soldado caído em
terreno neutro. O capitão decidiu arriscar a sua própria vida e trazer o
inimigo ferido para as suas linhas. Não conseguiu, contudo, impedir que o
soldado acabasse por falecer. Ao pedir iluminação para ver o rosto do soldado,
o capitão teve o maior choque da sua vida. O soldado inimigo era, afinal, o seu
próprio filho. Havia-se alistado no exército confederado sem o conhecimento do
pai, que era oficial do lado adversário. O capitão pediu então autorização aos
superiores para fazer um funeral com honras militares, o que foi autorizado
apenas em parte. Não tendo sido autorizada a presença da banda de músicos do
exército, o capitão pediu a um corneteiro que o acompanhasse. O soldado
falecido era músico e compositor. Entre os seus pertences fora encontrada uma
partitura, aparentemente escrita pelo próprio, e que o capitão entregara ao
corneteiro para a tocar no funeral: era o toque do silêncio. Ao longo dos anos
o tema tornou-se verdadeiramente universal. Foi e é tocado hoje por todos os
exércitos de todas as nações, mesmo quando se confrontam tenebrosamente entre
si. Assim aconteceu também durante a Primeira Guerra Mundial.
O silêncio que é
evocado pode ter múltiplos sentidos. Pode ser o silêncio da trégua, o silêncio
da acalmia ou o silêncio do alívio. Mas pode ser também o silêncio profundo do
adeus, o silêncio do fim da vida, ou até o silêncio do frio e longo
esquecimento.
Há relativamente
poucos meses, numa estação de rádio pública, no âmbito da evocação da
participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, foi revelada pela primeira
vez uma gravação áudio de um testemunho do famoso «soldado milhões». Aníbal
Augusto Milhais, ou Milhões, que se destacara galhardamente na sangrenta e
trágica batalha de LaLys, ao ponto de ser distinguido com a mais alta condecoração
da hierarquia militar, ele contava, nessa mesma gravação, de viva voz, à sua
neta: «Na véspera do 9 de Abril, disse aos meus companheiros: estou muito
contente com o sonho que tive. Sonhei com a santa da minha terra. Sonhei que
ela estava a rir-se muito para mim.» Há histórias que se tornam rápida e amplamente
conhecidas. É fácil, hoje, ouvir falar do famoso «soldado milhões». É fácil
conhecer os seus feitos, ouvir gravações do seu testemunho, saber desta
comovente memória de ter sonhado com a santa padroeira que estava lá longe, na
pequenina igreja da terra de onde partiu. Mas mais difícil será conhecer o percurso
daqueles que há muito permanecem no silêncio.
E, por isso,
perguntamo-nos, à semelhança do «soldado milhões», dos seus sonhos e preces com
a padroeira da sua terra: quantas vezes, naquele inferno das trincheiras do
norte de França, se terá rezado a São Salvador de Lordelo? Quantas vezes, no
meio de ferozes bombardeamentos, terão sido murmuradas preces a Santa Eulália
de Sobrosa? Quantos pedidos, dolorosos e
desesperados, terão sido feitos a S. Miguel de Gandra, a São Romão de Mouriz, a
São Tomé de Bitarães ou a Santo Estêvão de Vilela? Quantas orações foram
rezadas, na calidez deletéria de África, à Senhora do Bom Despacho de Recarei,
ou à Senhora do Ó de Duas Igrejas? Como é evidente, não é possível chegar a tal
detalhe de informação, tão íntima e tão privada. Mas hoje podemos saber, nós paredenses,
que o sangue derramado em África e em França, entre 1914 e 1918, naquela que
foi a maior catástrofe que a humanidade conhecera até então, é o mesmo sangue
que ainda nos vai correndo nas veias.
A data de hoje, 14 de
Julho, não foi escolhida para a apresentação desta obra por mero acaso. Nem
sequer por coincidir com as festas da cidade. É que faz exactamente hoje 100
anos, precisamente por volta desta mesma hora, que partiu para França o maior contingente
de militares paredenses mobilizados para a frente europeia, a caminho daquele
que seria o maior sacrifício das suas vidas.
O trabalho que hoje apresentamos, fruto de uma investigação que durara tanto
como a própria guerra – quatro anos – é a história desses homens. E é também um
pedaço importante da história do concelho durante a Primeira República.
Gostaria de fazer uma
singela menção àquela flor vermelha que aparece na capa do livro. Para a
generalidade dos portugueses a sua simbologia não é imediata. Contrariamente ao
que acontecera nos países anglo-saxónicos, onde vingou e vinga ainda hoje como símbolo
inconfundível da Primeira Guerra Mundial, e mais latamente de todos os
veteranos de guerra, no nosso país a papoila nunca se popularizou como marca de
uma presença, de uma luta e de um sacrifício que também foi dos portugueses. As
papoilas crescem em abundância na região da Flandres, e no meio das mais atrozes
e violentas incidências da Grande Guerra, naqueles cenários devastadores e
sombrios, os soldados reparavam – e alguns deles deixaram escrito nas suas
memórias – que essa “flor da trincheira” continuava, teimosamente, a crescer e
a multiplicar- se. Rubra, viva, erguida e triunfante.
Depois da tragédia de
La Lys, travada a 9 de Abril de 1918, um dos oficiais do Corpo Expedicionário
Português e homem desta terra, o capitão (mais tarde coronel) José Ribeiro da
Costa Júnior, percorreu os hospitais à procura de paredenses. Entre aqueles que
encontrou estava o soldado Manuel Neto da Silva, natural de Duas Igrejas.
Ferido gravemente por
gases tóxicos, sofrendo em grande agonia, teve ainda forças para fazer um
pedido ao seu conterrâneo. Não pediu medicamentos. Não pediu médicos ou
enfermeiros. Estas foram as suas palavras: “Meu capitão, peço-lhe que me deixe
ir morrer à minha terra.” Costa Júnior conseguiu repatriar o soldado.
Manuel regressou à
sua terra, onde morreu e foi sepultado, quatro anos depois da batalha de La
Lys. Morreu vitimado precisamente pelas complicações de saúde causadas pela
inalação de gases tóxicos.
Nem todos, porém,
puderam cumprir o desejo de regressar. Estão sepultados, até hoje, doze
paredenses em África e sete em França. Sr. Presidente da Câmara Municipal,
permita-me a ousadia de terminar com um pedido que é, simultaneamente, um
desafio. Prometi a mim mesmo, no dia em que visitei as sepulturas dos quatro
paredenses inumados em Richebourg, que lhe transmitiria esta simples mensagem.
Peço-lhe, pois, que seja o primeiro Presidente de Câmara de Paredes, a visitar
oficialmente o Cemitério Militar Português em França. Peço-lhe que toda a carga
simbólica da sua presença, como figura cimeira da terra que viu nascer aqueles
homens, seja o sinal que falta para se cumprir o desígnio da memória. Peço-lhe
que vá até junto daqueles que não conseguiram vir morrer à sua terra.
Termino, desde já,
agradecendo-lhe. Obrigado por ter apoiado este projecto e por ter tornado
possível a sua publicação em livro. Obrigado em meu nome, mas também em nome de
todos aqueles que, como eu, se interessam pela história do concelho. Estou
certo ainda de que o meu agradecimento se estende às famílias de todos os
combatentes paredenses na Grande Guerra.
Na contracapa do
livro, uma citação que sintetiza a sua apresentação: «São estes os heróis de
que se não fala, senão no dia em que uma bala acerta nestes pobres cântaros,
fartos de ir silenciosamente à fonte.»
Muito obrigado.
Ivo Rafael Silva
Paredes, 14 de Julho
de 2017
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