A voz radiofónica da TSF afirma diariamente uma mesma lengalenga, algo como isto: “a Bolsa encerrou em alta, animada pelo resultados da EDP, …em Nova Iorque com o Dawn Jones a ganhar… e encerrou no vermelho…os títulos voltaram a ser bastante penalizados…a recuperar das fortes perdas com os investidores a acreditar…as acções tocaram um máximo histórico…com o principal índice, o PSI 20 a perder…a suspensão da negociação dos títulos…a tendência na Bolsa de Lisboa segue em linha com as Bolsas Europeias…”.
Várias vezes ao dia se repete a homilia das transacções bolsistas. Imagino que há quem dela tome boa nota. Como aqueles que apontam os números premiados da lotaria e pensam que assim têm mais hipóteses. É um carrocel onde gente sem rosto ganha e perde, numa improvável relação com a vida real e a economia. Dizem-me que se trata de gestão e valorização de activos e expectativas, mas sinto que é uma mera máquina de acumulação de capital e de triturar os pequenos aforradores. Mas poderei estar enganado.
Inventemos uma Bolsa de Satisfação Individual. Constituiria um registo / barómetro de expectativas e rendimentos. Substituamos por exemplo os valores das acções de instituições financeiras cotadas em Bolsa por rendimentos de funcionários públicos, associados a critérios de qualidade de vida. Um exemplo: o indicador da satisfação Individual dos médicos, a trabalhar com vínculo em funções públicas.
Ele estaria no presente por exemplo no indicador 3 em escala de 1 a 10, em que 1 é muito mau e 10 é muito bom. Acumularam-se as razões de perda ou penalização: foi o roubo de parte significativa do subsídio de Natal, foram as reduções administrativas de horas extraordinárias, foram as maiores deduções para a Caixa Geral de Aposentações e ADSE, foi o aumento do custo de vida não compensado por aumentos salariais ou progressão de carreiras. E não custa perceber a insatisfação nesta época natalícia.
Mas os ”investidores” (os médicos) já não acreditam no futuro próximo e esperam-se “mínimos históricos” no próximo ano com a supressão de dois salários mensais, redução do valor da retribuição mensal, menos incentivos relativos a produtividade, menos horas extraordinárias, horas extraordinárias não ou pior pagas, redução de incentivos á formação interpares. E se na escala estávamos no indicador 3 agora passaremos certamente para o indicador 1, que é um indicador de insatisfação total e de lamentável insuficiência de condições de sobrevivência com dignidade.
E assim se criássemos a dita Bolsa de Satisfação Individual teríamos em breve uma lengalenga radiofónica que diria: “a Bolsa de Satisfação Individual dos médicos com vínculos em funções públicas encerrou em baixa, atingindo níveis históricos, em linha com outras bolsas de outros sectores profissionais, com a suspensão da negociação colectiva a ditar essa evolução. As perdas foram tão grandes, que obrigou a suspensão da sessão. Admite-se o crash. Os serviços estão paralisados, o desemprego é enorme, assiste-se a uma grande desmotivação e indisciplina, com crescentes casos de corrupção e de não garantia de condições mínimas e legais de acessibilidade. Os quadros mais jovens abandonaram o País, e os com idade próxima da idade de aposentação abandonaram os serviços. As chefias intermediárias têm-se tornado inoperantes e tornaram-se mais sensíveis a apelos á demissão. A situação sanitária do País regrediu cerca de 30 anos.
Deixo aqui o aviso. Bom Natal.
cristianoribeir@gmail.com
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