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quarta-feira, 16 de maio de 2012

o absurdo que vamos tolerando

Hoje acordei com a notícia da abertura de um hospital privado em Coimbra. Confesso que me arrepiei com o destino dos seus 400 trabalhadores, com a promessa de dezenas de especialidades ao serviço de uma população abstrata, incluindo serviços de maternidade e de neonatologia intensiva. Arrepiei-me com o absurdo de um tal investimento, numa região tão deprimida como a Região Centro e felizmente com serviços públicos de qualidade como os HUC e os Centros de Saúde da região.
Mas enquanto reflectia neste paradoxo - um aumento substancial de oferta numa diminuição real de possibilidade de acesso - surgiu a outra notícia bombástica: Portugal é o 25.º num ranking de 34 sistemas europeus de saúde. Segundo estudo de uma organização independente sueca, a crise afectou a assistencia médica e já tem impacto directo na qualidade do sistema de saúde nacional. Portugal desceu quatro lugares no ranking desde 2009, fica atrás da Estónia, Chipre, Malta e Grécia, e só suplanta países do Leste Europeu. As politicas de redução de custos, resultantes da austeridade imposta pela troika estrangeira, com a cumplicidade da troika nacional, originaram uma rápida degradação na lista e tempo de espera para consultas e cirurgias, nas infeções hospitalares, nas taxas moderadoras, nos programas de rastreio e diagnóstico precoce, nas opções das cesarianas, no preço dos medicamentos, nos recursos humanos qualificados e de auxilio directo, no material disponível. A qualidade desce, a segurança é atingida, a mortalidade aumenta, os resultados são medíocres. Apesar do esforço contra-corrente de equipas e instituições, a gestão danosa da saúde responsabiliza uma corja de dirigentes insensíveis e impreparados para liderar um sector tão importante.
Percebe-se assim melhor o esforço do grande capital nacional em se apropriar do SNS, retirando-lhe recursos, descapitalizando-o, desprestigiando-o, esvaziando-o. A alternativa privada está aí. A preço "justo", dirão uns. A"custo" insuportável, direi eu.

CR

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