um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

domingo, 30 de setembro de 2012

a propósito de cadeira

 Em Objecto Quase, livro de contos de José Saramago publicado em 1978, há um conto chamado Cadeira. Trata-se de uma alegoria com base no desabamento súbito de uma histórica cadeira, um velho ditador por nós conhecido derrubado sem piedade pela acção constante de um insecto do caruncho. Uma cadeira julgada perfeita que deixa de o ser porque mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Ou como lembra o autor, não fosse a cadeira, cadere em latim, fadada ao fim de cair, pelo seu próprio nome.
O Anobium vingador, herói anónimo, geração atrás geração, cumpre a sua missão. A queda ocorre sem que ninguém presencie ou, melhor, sem que ninguém contrarie a queda. A aresta do móvel vizinho colide com o crânio em queda do ditador. Advém assim o traumatismo, a pequena equimose externa mas que significa a ruptura anatómica interna, o sangue extravasado e acumulado. Dois anos de degradante vegetação física e um alheamento completo da realidade. O fim.
Invocar a humanidade, o azar, lamentar o ocorrido, que perda de tempo… Mas é a morte uma desculpa, um perdão, uma esponja, uma lixívia para lavar crimes? Pergunta Saramago. A cadeira não importa. Importa a sua queda, excelente e espectacular.
Vamos até a janela. Que me diz a este mês de Setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim. Assim termina o conto de Saramago.
Observemos as cadeiras onde hoje se sentam muitos. Não se vêem algumas já em desequilíbrio irreversível? Será que não estarão já invadidas pelos coleópteros? Tardará muito o som articulado formado na garganta do tombante, mais grito que voz, mais surpresa que desejo de não cair? Julgo que não há cadeiras seguras onde se sente a injustiça, a mediocridade ou a hipocrisia. Descontado o design, o colorido, o texto referencial, não se encontra cadeira específica ou singular de onde o poder não caia.
Setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.    
CR

Sem comentários:

Enviar um comentário