O Anobium vingador, herói anónimo, geração atrás geração, cumpre a sua missão. A queda ocorre sem que ninguém presencie ou, melhor, sem que ninguém contrarie a queda. A aresta do móvel vizinho colide com o crânio em queda do ditador. Advém assim o traumatismo, a pequena equimose externa mas que significa a ruptura anatómica interna, o sangue extravasado e acumulado. Dois anos de degradante vegetação física e um alheamento completo da realidade. O fim.
Invocar a humanidade, o azar, lamentar o ocorrido, que perda de tempo… Mas é a morte uma desculpa, um perdão, uma esponja, uma lixívia para lavar crimes? Pergunta Saramago. A cadeira não importa. Importa a sua queda, excelente e espectacular.
Vamos até a janela. Que me diz a este mês de Setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim. Assim termina o conto de Saramago.
Observemos as cadeiras onde hoje se sentam muitos. Não se vêem algumas já em desequilíbrio irreversível? Será que não estarão já invadidas pelos coleópteros? Tardará muito o som articulado formado na garganta do tombante, mais grito que voz, mais surpresa que desejo de não cair? Julgo que não há cadeiras seguras onde se sente a injustiça, a mediocridade ou a hipocrisia. Descontado o design, o colorido, o texto referencial, não se encontra cadeira específica ou singular de onde o poder não caia.
Setembro? Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.
CR
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