FECHOU
A ESCOLA EM GRIJÓ
Dantes
ouviam-se as crianças a caminho da escola
e
eram como pássaros de som nas manhãs de Grijó.
Não
eram muitas, mas as vozes joviais
Davam
sinal de que a aldeia resistia,
continha
à distância o deserto que a ronda
Agora
as crianças, todas as manhãs,
são
acondicionadas como mercadorias
numa
viatura com vocação de furgoneta.
Lembram
judeus em vagões jota
a
caminho de Auschwitz.
Vão
aprender em terra estranha o que os seus pais
e
os pais dos seus pais aprenderam em Grijó.
Só
se voltam a ouvir ao fim da tarde
quando
a viatura as despeja no largo da aldeia
como
artigos que ficaram por vender.
Mas
ouvem-se pouco, porque vêm cansadas.
Ouvem-se
pouco e triste porque o seu dia
_que
devia ser dia de Grijó_
foi
deportado para outra terra onde
não
se lhe firmam as raízes.
O
senhor ministro das Finanças está contente
porque
poupa meia dúzia de euros
com
a violenta trasfega da infância.
Mas
está triste Grijó, porque já não ouve
as
suas aves da manhã a caminho da escola
_
e por isso pode dizer-se que a aldeia encolheu,
ficaram
uns metros mais perto as areias de amanhã.
Caladas
as vozes tagarelas das crianças,
nos
dias de Grijó poucas mais se ouvem
do
que as de alguns velhos que antecipam
em
palavras raras, conformadas,
o
dia em que o silêncio cobrirá com estrondo
o
(des)povoado definitivamente.
O
senhor ministro das Finanças terá poupado
mais
alguns euros com a instalação
deste
opressivo silêncio final,
e ficará contente. Grijó não.
(A.M.Pires
Cabral,
em Cesto da Gávea, colaboração do autor em Repórter do Marão, de 12 de Setembro
de 2012, reproduzido aqui contando com a sua benevolência e permissão)
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