1. Eis uma história simples... O pai do Francisco morre inesperadamente e ninguém sabe como dar-lhe a terrível notícia. Até que surge um voluntário, o António, que, emboscando o Francisco à saída do trabalho, lhe diz: "Francisco, aconteceu uma tragédia, morreu a tua família toda!". O Francisco dá um grito sem som, e o António não espera mais: "Tem calma, pá, estou a brincar, não foi bem assim, morreu apenas o teu pai!". Com um ronco de alívio do tamanho da vida, o Francisco grita: "Ena, pá, que grande susto me pregaste, vamos mas é beber uns copos para festejar!".
2. É que há qualquer coisa que me está a escapar neste dia-a-dia em que fomos mergulhados. Leio no jornal que o governo decidiu o encerramento de mais 239 escolas do 1.º ciclo do ensino básico. Duzentas e trinta e nove escolas, por extenso, não haja confusões. Peço-vos que experimentem contar em voz alta de 1 até 239, e verificarão que no último terço da contagem a nossa voz começa a ficar entaramelada... Mas, tanto quanto o encerramento das escolas, incomodou-me – a acreditar nos jornais – a passividade com que ele foi aceite, por dirigentes das escolas, por docentes, por pais, por autarcas, com o extraordinário argumento de que, desta feita, tudo havia sido previamente acertado. Ora, estas 239 não constituem senão a última fatia – até agora – de um total de 3720 escolas encerradas desde 2005. Três mil setecentas e vinte! Contar em voz alta de 1 até 3720 deixa-nos seguramente sem fôlego – um reflexo fisiológico menor da brutalidade concretizada neste impiedoso e sistemático encerramento. Já nem falamos dos sérios inconvenientes que existem na substituição de uma escola humanizada, de pequena dimensão, próxima da família – tudo o que se recomenda, enfim, para crianças com estas idades –, por uma outra a quilómetros de distância, por vezes a muitos quilómetros, onde os alunos passam de pessoas a números, fruto de uma gestão cada vez menos pedagógica por força dos mega-agrupamentos.
3. O nosso país está a ser reduzido a duas faixas litorais: uma, a oeste, que se estende no sentido norte-sul, entre Viana do Castelo e Setúbal, com não mais de 40 km de profundidade, e uma outra, a sul, no Algarve, no sentido leste-oeste, com menos de 10 km de profundidade – não existem praias tão largas – e entregue à monocultura do turismo. (Devido à sua especificidade geográfica, não falo aqui da Madeira e dos Açores). Fora destas faixas, existem alguns enclaves: Évora, Viseu, Vila Real e, sem ofensa, pouco mais. Porque quando se encerram 3720 escolas, e esse encerramento é acompanhado pelo de maternidades, centros de saúde, valências hospitalares, tribunais, linhas de caminho de ferro, estações de correio, postos da GNR, esquadras de polícia – o que é que afinal está a ser encerrado? Ou, de outro modo, que país nos resta? Na definição de "país", até na componente estratégica da defesa, a ocupação do território é essencial – e nós não estamos a ocupar mais do que 30.000 dos 89.000 km2 do nosso território continental.
4. Ouço na televisão um sindicalista docente dizer, à saída de uma reunião com o Senhor Ministro da Educação e da Ciência: "Há possibilidades de não haver condições de sucesso para os alunos". Bem, eu sei que devemos ser cuidadosos com as palavras – mas tanto?!... Com as alterações curriculares, com o aumento do número de alunos por turma, com a constituição dos mega-agrupamentos, com o despedimento, no imediato ou a prazo, de milhares de professores (não dezenas de milhares, mas apenas [?] milhares), com a promessa feita pelo Ministério de que as melhores escolas (o que quer que isto queira dizer) poderão vir a contratar mais professores (quando qualquer pessoa de bom senso pensaria que, a existir essa possibilidade, ela se destinaria às escolas mais problemáticas), com a instabilidade e a insegurança instaladas na vida profissional, pessoal e familiar dos docentes por meio de uma brutal guerra contra eles desencadeada pelo Ministério, concretizada no bombardeamento das escolas com sucessivas e contraditórias orientações sobre a vinculação e os concursos – e não se diz mais do que "Há possibilidades de não haver condições de sucesso para os alunos"?!... Uma frase que é exactamente o mesmo que nada dizer.
5. A anormalidade já está normalizada?...
José Calçada (texto publicado no Público)
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