Na Ucrânia, a chamada
Ordem Mundial foi fortemente abalada por um problema geopolítico estrutural. As
potências ditas “ocidentais”, europeias e os Estados Unidos, criaram um perigoso
desequilíbrio na relação de forças regionais, ao promoverem um golpe de estado
inconstitucional na Ucrânia e ao estenderem a sua área de influência política,
económica e militar para Leste. Tal orientação, substanciada em medidas políticas
de hostilização e humilhação da Rússia, da sua história e de comunidades
culturalmente afins, não podia deixar de ter consequências agudas. A tentativa
de rapina de recursos e de potencialidades estendeu-se às áreas energéticas e
agrícolas e não descurou uma mão-de-obra qualificada, de baixo custo.
Há uma intensa guerra
aberta em curso no interior da Europa. E três líderes de outras tantas
potências europeias reuniram-se a 6 de Fevereiro em Moscovo para tentar responder
a esse desafio á paz na Europa. Hollande, o Presidente Francês, e Merkel, a Chanceler
Alemã, teriam advogado, ao que consta, perante Putin, uma maior autonomia para
as regiões leste da Ucrânia e uma zona desmilitarizada de 50 a 70 km de cada lado da linha
divisória actual. A liderança russa aposta em conversações directas e na
suspensão das hostilidades, propondo manter a integridade territorial da
Ucrânia com um projecto federal.
Outros interessados, como o actual governo ucraniano, vivem sob o ardor nacionalista
de uma desejada vitória militar,
sobre os por si designados “terroristas” (em vez da solução diplomática),
pretendendo uma intervenção militar da NATO e apoio no fornecimento de armas
tecnologicamente avançadas.
A linguagem da guerra
dos países ocidentais e das forças punitivas de Kiev colide com a realidade no
terreno. Após um elaborado acordo em Minsk, entre o actual governo de Kiev e os
chamados rebeldes das Repúblicas de Donetsk e Lugansk, as autoridades
ucranianas avaliaram mal a disponibilidade para a defesa do seu território e
autodeterminação por parte dos habitantes de Dombass, bem como o apoio político
e logístico da Rússia. A guerra não lhes corria de feição. O aventureirismo de Poroshenko, e da sua entourage
neonazi, certamente encorajada do exterior, desencadeou uma resposta rápida e superior
por parte dos rebeldes aproveitando a desmoralização do exército e dos grupos armados
de voluntários. Os rebeldes pró-russos passaram á ofensiva, deixando ao poder
de Kiev a única cobarde iniciativa de, fugindo ao terreno do combate, flagelar á
distância com artilharia pesada populações civis indefesas e destruindo infra-estruturas
numa política de terra queimada. O avanço das tropas da Nova Rússia parece
consistente. Milhares de soldados fiéis de Kiev estão encurralados no enclave
de Debaltsevo. A mobilização de novos efectivos por incorporação falha em
grande escala. Os soldados desertam e os jovens fogem á incorporação. A moeda
nacional ucraniana, a hryvnia, desvaloriza 25% de uma só vez, num só dia.
São crescentes os
cidadãos do mundo que se interrogam se o direito á autodeterminação, que
redefiniu fronteiras na década de 90 na Jugoslávia e na Sérvia, não se pode
aplicar agora á Ucrânia. A Rússia de Putin não se sente limitada pelas ameaças,
sanções económicas e políticas do Ocidente. Esta semana estabeleceu acordos de
associação com a Abecásia e a Ossétia do Sul, para irritação da Geórgia. A Transnístria,
uma comunidade independente, existe há muito sob protecção russa em território anteriormente
da ex-república soviética da Moldávia.
Poroshenko faz o
papel de palhaço pobre. E os palhaços pobres vivem na sombra dos palhaços ricos.

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