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domingo, 8 de fevereiro de 2015

GUERRA E PAZ


Na Ucrânia, a chamada Ordem Mundial foi fortemente abalada por um problema geopolítico estrutural. As potências ditas “ocidentais”, europeias e os Estados Unidos, criaram um perigoso desequilíbrio na relação de forças regionais, ao promoverem um golpe de estado inconstitucional na Ucrânia e ao estenderem a sua área de influência política, económica e militar para Leste. Tal orientação, substanciada em medidas políticas de hostilização e humilhação da Rússia, da sua história e de comunidades culturalmente afins, não podia deixar de ter consequências agudas. A tentativa de rapina de recursos e de potencialidades estendeu-se às áreas energéticas e agrícolas e não descurou uma mão-de-obra qualificada, de baixo custo.

Há uma intensa guerra aberta em curso no interior da Europa. E três líderes de outras tantas potências europeias reuniram-se a 6 de Fevereiro em Moscovo para tentar responder a esse desafio á paz na Europa. Hollande, o Presidente Francês, e Merkel, a Chanceler Alemã, teriam advogado, ao que consta, perante Putin, uma maior autonomia para as regiões leste da Ucrânia e uma zona desmilitarizada de 50 a 70 km de cada lado da linha divisória actual. A liderança russa aposta em conversações directas e na suspensão das hostilidades, propondo manter a integridade territorial da Ucrânia com um projecto federal. Outros interessados, como o actual governo ucraniano, vivem sob o ardor nacionalista de uma desejada vitória militar, sobre os por si designados “terroristas” (em vez da solução diplomática), pretendendo uma intervenção militar da NATO e apoio no fornecimento de armas tecnologicamente avançadas.

A linguagem da guerra dos países ocidentais e das forças punitivas de Kiev colide com a realidade no terreno. Após um elaborado acordo em Minsk, entre o actual governo de Kiev e os chamados rebeldes das Repúblicas de Donetsk e Lugansk, as autoridades ucranianas avaliaram mal a disponibilidade para a defesa do seu território e autodeterminação por parte dos habitantes de Dombass, bem como o apoio político e logístico da Rússia. A guerra não lhes corria de feição. O aventureirismo de Poroshenko, e da sua entourage neonazi, certamente encorajada do exterior, desencadeou uma resposta rápida e superior por parte dos rebeldes aproveitando a desmoralização do exército e dos grupos armados de voluntários. Os rebeldes pró-russos passaram á ofensiva, deixando ao poder de Kiev a única cobarde iniciativa de, fugindo ao terreno do combate, flagelar á distância com artilharia pesada populações civis indefesas e destruindo infra-estruturas numa política de terra queimada. O avanço das tropas da Nova Rússia parece consistente. Milhares de soldados fiéis de Kiev estão encurralados no enclave de Debaltsevo. A mobilização de novos efectivos por incorporação falha em grande escala. Os soldados desertam e os jovens fogem á incorporação. A moeda nacional ucraniana, a hryvnia, desvaloriza 25% de uma só vez, num só dia.

São crescentes os cidadãos do mundo que se interrogam se o direito á autodeterminação, que redefiniu fronteiras na década de 90 na Jugoslávia e na Sérvia, não se pode aplicar agora á Ucrânia. A Rússia de Putin não se sente limitada pelas ameaças, sanções económicas e políticas do Ocidente. Esta semana estabeleceu acordos de associação com a Abecásia e a Ossétia do Sul, para irritação da Geórgia. A Transnístria, uma comunidade independente, existe há muito sob protecção russa em território anteriormente da ex-república soviética da Moldávia.   

Poroshenko faz o papel de palhaço pobre. E os palhaços pobres vivem na sombra dos palhaços ricos.

CR

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