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domingo, 25 de novembro de 2012

REFLEXÃO SOBRE O 14 NOV

No meu local de trabalho, um serviço público, a greve geral decretada pela CGTP de 14 de novembro foi vivida de forma particular. De um universo de 20 elementos, 13 fizeram greve, 6 estiveram presentes e 1 não estava por férias. Mas como os profissionais administrativos fizeram greve, não houve suporte administrativo e informático, não se fizeram consultas médicas ou de enfermagem, não houve por isso trabalho /assistência/produção. Tivemos perversamente profissionais que lutaram pelos interesses dos próprios e dos outros e abdicaram da remuneração de um dia de trabalho e outros que abdicaram de lutar pelos interesses próprios e dos outros, não abdicaram da remuneração e trabalharam nesse dia o mesmo dos outros, isto é, zero.
O Primeiro Ministro deste País assinalou a “coragem” de não fazer greve. O Presidente da República deste País em dia de greve geral, fez questão em dizer que estava a trabalhar. O País dividir-se-ia entre os que acompanham “corajosamente” o Primeiro Ministro e o Presidente da República neste afã pelo trabalho e os que estão numa de deixar, por conveniente, o Primeiro Ministro e o Presidente da República… descansar. Não sendo o descanso eterno, que não se deseja a ninguém, que seja pelo menos uma licença prolongada.
Há 3 grandes razões ou grupo de razões que a meu ver justificam a “coragem” de que fala Passos Coelho, do País “trabalhador” de 14 de nov.
 A primeira razão seria a identificação com o PSD (e com o atrelado CDS), a cumplicidade do militante ou eleitor, a dependência funcional ou emotiva, que pode ser concordância com o rumo das políticas ou com os protagonistas, ou não, a visão apologética das setinhas viradas para o céu ou para a bolinha ao centro. Percebe-se que do silêncio não concordante de muitos, da conversa particular crítica, a actos activos de rebeldia, vai uma distância considerável, um percurso sinuoso.  O povo “trabalhador” de 14 de nov é uma caldeirada de motivações, vontades diversas, indecisões e incompreensões.
A segunda razão da “coragem” de não fazer greve, em momento tão marcante, reside no medo. Medo de quê? Medo do patrão, mesmo que seja o Estado, medo da precariedade, do despedimento, medo da discriminação, medo do rótulo, medo da apreciação dos outros, medo de si próprio. A realidade vivida transmite-nos exemplos inúmeros de incerteza, dúvida, pragmatismo sem princípios, oportunismo. Vivemos angustiados e sacrificados o dia-a-dia mas paradoxalmente o futuro, que depende de nós, é que nos atormenta. O 14 de nov é a outra (mesma) face do 1.º de maio do Pingo Doce. A felicidade contentinha de poupar uns euros por dois dias (já só faltam os outros 363 dias…)   
A terceira razão reside na falta de perspectiva, por preguiça mental em procurar saber o porquê das coisas, em colher informação, em raciocinar devidamente. Apesar de tudo parece-me a mais generalizada e felizmente aquela que nos pode conduzir á mudança. Respeitar em todos e cada um este diferente patamar de consciência social parece ser necessário. A liberdade passa por aqui: ser livre nas opções, tendo direito a uma informação /compreensão dos fenómenos.
Uma sugestão final: talvez fosse adequado discutir nos locais de trabalho a constituição de um Fundo de Greve, que permitisse a resposta autónoma e eficaz aos desafios do presente e do futuro.
CR   
 

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