No
meu local de trabalho, um serviço público, a greve geral decretada pela CGTP de
14 de novembro foi vivida de forma particular. De um universo de 20 elementos,
13 fizeram greve, 6 estiveram presentes e 1 não estava por férias. Mas como os
profissionais administrativos fizeram greve, não houve suporte administrativo e
informático, não se fizeram consultas médicas ou de enfermagem, não houve por
isso trabalho /assistência/produção. Tivemos perversamente profissionais que
lutaram pelos interesses dos próprios e dos outros e abdicaram da remuneração
de um dia de trabalho e outros que abdicaram de lutar pelos interesses próprios
e dos outros, não abdicaram da remuneração e trabalharam nesse dia o mesmo dos
outros, isto é, zero.
O
Primeiro Ministro deste País assinalou a “coragem” de não fazer greve. O Presidente
da República deste País em dia de greve geral, fez questão em dizer que estava
a trabalhar. O País dividir-se-ia entre os que acompanham “corajosamente” o
Primeiro Ministro e o Presidente da República neste afã pelo trabalho e os que
estão numa de deixar, por conveniente, o Primeiro Ministro e o Presidente da
República… descansar. Não sendo o descanso eterno, que não se deseja a ninguém,
que seja pelo menos uma licença prolongada.
Há
3 grandes razões ou grupo de razões que a meu ver justificam a “coragem” de que
fala Passos Coelho, do País “trabalhador” de 14 de nov.
A primeira razão seria a identificação com o
PSD (e com o atrelado CDS), a cumplicidade do militante ou eleitor, a dependência
funcional ou emotiva, que pode ser concordância com o rumo das políticas ou com
os protagonistas, ou não, a visão
apologética das setinhas viradas para o céu ou para a bolinha ao centro. Percebe-se
que do silêncio não concordante de muitos, da conversa particular crítica, a
actos activos de rebeldia, vai uma distância considerável, um percurso sinuoso.
O povo “trabalhador” de 14 de nov é uma
caldeirada de motivações, vontades diversas, indecisões e incompreensões.
A
segunda razão da “coragem” de não fazer greve, em momento tão marcante, reside
no medo. Medo de quê? Medo do patrão, mesmo que seja o Estado, medo da
precariedade, do despedimento, medo da discriminação, medo do rótulo, medo da
apreciação dos outros, medo de si próprio. A realidade vivida transmite-nos exemplos
inúmeros de incerteza, dúvida, pragmatismo sem princípios, oportunismo. Vivemos
angustiados e sacrificados o dia-a-dia mas paradoxalmente o futuro, que depende
de nós, é que nos atormenta. O 14 de nov é a outra (mesma) face do 1.º de maio
do Pingo Doce. A felicidade contentinha de poupar uns euros por dois dias (já
só faltam os outros 363 dias…)
A
terceira razão reside na falta de perspectiva, por preguiça mental em procurar
saber o porquê das coisas, em colher informação, em raciocinar devidamente. Apesar
de tudo parece-me a mais generalizada e felizmente aquela que nos pode conduzir
á mudança. Respeitar em todos e cada um este diferente patamar de consciência
social parece ser necessário. A liberdade passa por aqui: ser livre nas opções,
tendo direito a uma informação /compreensão dos fenómenos.
Uma
sugestão final: talvez fosse adequado discutir nos locais de trabalho a constituição
de um Fundo de Greve, que permitisse a resposta autónoma e eficaz aos desafios
do presente e do futuro.
CR
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